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Poesia na Rede
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Poesia na Rede by Carlos Alberto de Mello is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
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Permitida a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor seja citado

CARLOS ALBERTO DE MELLO:

 

OCEANOS E MARES ESQUECIDOS

 

 

Tormentosos oceanos esquecidos

Onde mares violentos arrebentam

Despertando temores e gemidos,

Em corsários valentes que os enfrentam.

 

Mares turvos, bravios, desmedidos

Cujas águas de rochas se alimentam.

São oceanos dos sonhos extraídos

Que nas noites mais tristes atormentam.

 

 

Se não vemos as ondas que levantam,

Pelos menos ouvimos seus lamentos

Quando em nossas consciências se agigantam.

 

 

Mares onde sucumbem vencedores

E vencidos nos mesmos sofrimentos;

Os profundos oceanos dos rancores.

 

 

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PSIQUE

 

 

Um pedaço de mim corteja a lua,

outro procura pôr os pés no chão.

Enquanto aquele vaga pela rua,

este não perde nunca a direção.

 

 

Um lado pensa, julga, conceitua,

o outro se perde sempre na emoção.

Uma parte se veste, a outra está nua;

uma escreve discurso, a outra canção.

 

 

A metade que fala não escuta.

A que escuta não sabe o que dizer.

Eu inteiro sou parte da disputa,

 

 

e não sei o que vai acontecer:

Se sentamos na mesa com cicuta

ou se aprendemos a nos conhecer...

 

 

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FRENTE AO ESPELHO

 

 

De todas as derrotas sobram umas

Lições imperativas de viver.

Caíste tantas vezes sem querer

Que acabaste forrando o chão de plumas.

 

 

Desculpas aos fracassos tens algumas

Que ditas na hora certa fazem crer

Que és mais nobre que tentas parecer

(E te celebram tolos com espumas...)

 

 

Aprendeste ouropéis, declinações,

Discursos afetivos, citações,

E criaste um arcabouço sustentável.

 

 

Mas, se enganas distintas pobres almas,

Não te sentes feliz com tantas palmas,

E, frente ao espelho, gritas: - Miserável!

 

 

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EPITÁFIO

 

 

A você que arriscou sem arriscar,

que não se apaixonou pra não sofrer,

que não acreditou nem em você,

que não se permitiu rir ou chorar.

 

 

A você que aceitou se retratar

(porque pensou no muito o que perder),

embora desejasse defender

cada palavra dita sem pensar.

 

 

A você que andou sempre bem vestido,

que somente iniciou sabendo o fim,

que se traiu bem mais que foi traído,

 

 

que fez da parcimônia uma bandeira.

A você que viveu a vida assim,

restou aproveitar a morte inteira.

 

 

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O RETORNO

 

 

Retornas do trabalho machucado,

Ferido de uma dor cumulativa;

Na porta a te esperar a comitiva

Pergunta por que estás tão atrasado;

 

 

Não dizes nada. E o corpo maltratado

Procura a paz, fugaz e lenitiva,

Sob a água da banheira intransitiva

(o derradeiro espaço sossegado).

 

 

Queres cerrar os olhos e dormir,

Um sono profundo, épico, infinito;

Um sono acalentado, sem porvir;

 

 

Mas soam as batidas te chamando;

E logo vozes, choro, um longo grito...

E vês que ainda vives, despertando...

 

 

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JOVEM MARUJO DE LISBOA

 

 

Ferro, fogo, ferida que não sara.

Este gosto salgado na garganta.

Onda que quebra e logo se levanta.

Vento, vozes, o sol queimando a cara.

 

 

Vem a saudade... Nada mais adianta...

- Vamos morrer! Alguém, enfim, declara.

Corre; vai ao convés. Pega algo. Pára.

Lê a carta singela de amor. Tanta

 

 

coisa para pensar, lembrar, fazer...

Quando as águas penetram a cabina,

chegam sem pressa, quase sem querer.

 

 

Sonha, jovem marujo de Lisboa,

sobre a lâmina fria e cristalina

soem versos de Camões e de Pessoa...

 

 

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SONETO DA ESPERANÇA

 

 

À Terra com fronteiras, oceanos nomeados,

linhas, setas, escalas e numerações;

à Terra dividida entre tantas noções

de liberdade, fé e conceitos de Estados;

 

 

à Terra de legiões de párias, condenados

pela pobreza e falta absoluta de opções;

à Terra de mesquinhos, duros corações,

que querem reduzir a vida aos seus tratados;

 

 

contrapõe-se uma outra, muito mais bonita,

que gira inteira, gota azul no vasto espaço,

revelando o milagre que aqui ocorreu.

 

 

Milagre aceito até por fervoroso ateu.

Milagre que nos une a tudo num compasso.

Milagre registrado na palavra escrita.

 

 

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MILHÕES DE CORAÇÕES

 

 

Milhões de corações nos cumprimentam

perguntam como vão as nossas vidas

que sonhos nossos sonhos alimentam

se estamos encontrando outras saídas

 

 

Nos olham com certezas que acalentam

de lindas fantasias coloridas

Tão grandes esperanças os fomentam

que julgam suas almas redimidas

 

 

E não dizemos nada, nem podemos

Fingimos que não há o que falar

O mundo é este mesmo que sabemos

 

 

Aos mortos não se deve incomodar

Enquanto que imaginam que fazemos

vivemos sem vontade de mudar

 

 

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O QUERER

 

 

Podendo tê-la perto, sem querê-la;

Querendo tê-lo perto, sem podê-lo;

O querer é, sim (não), satisfazê-lo;

É saber a derrota e bendizê-la;

 

 

É conversar a sós ouvindo estrela;

É prender-se num fio de cabelo;

É negar-se a dizer, depois dizê-lo;

É dividir a vida, sem perdê-la.

 

 

Certeza de não ter mais que incerteza.

Um jogo sem ataque e sem defesa,

Que não tem regra nem competidor.

 

 

Pode ser simplesmente introdutório:

Um sentimento vago e transitório;

Ou pode ser, enfim, um grande amor.

 

 

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DE MÃOS DADAS PELAS RUAS

 

 

As nossas almas não são mais sozinhas.

Vou dizendo e esperando que concluas:

Minhas eternamente as dores tuas;

Tuas eternamente as dores minhas.

 

 

Andando de mãos dadas pelas ruas,

Eu te acarinho enquanto me acarinhas.

Se te descubro, sei que me adivinhas.

Se sigo em frente, sei que não recuas.

 

 

Se fico triste, logo te avizinhas;

Se pesam os problemas, atenuas;

Se digo, dizes mais nas entrelinhas.

 

 

Por isso te proclamo (e preceituas):

Minhas eternamente as dores tuas;

Tuas eternamente as dores minhas.

 

 

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CONVERSA DE BAR

 

 

Não posso bancar tudo o que você

Merece, por que tenho pouco a dar.

Possuo pouca coisa de comprar;

E muito pouca coisa que se vê.

 

 

Não tenho segurança a oferecer,

Nem posso garantir lhe sustentar.

Palavra que não posso nem pagar

A conta que acabamos de fazer.

 

 

Não tenho carro novo nem usado.

Às vezes chego em casa embriagado.

Esqueço o que não era pra esquecer.

 

 

Só tenho o coração apaixonado

Que bate de prazer, descompassado,

Assim que fica perto de você.

 

 

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DECLARAÇÃO DE AMOR

 

 

Estás triste, te sentes velha, feia.

Insegura, perguntas como estás,

Se estou feliz, se não a quero mais;

Reclamas do cabelo que embranqueia.

 

 

Digo que a amo, que sempre...sempre amei-a

E recordo de muito tempo atrás,

De quando eras menina e eu um rapaz,

E, de novo, meu peito se incendeia...

 

 

Se o tempo amarelou nossos retratos,

e alterou tantas coisas, tantos fatos,

não conseguiu mudar: continuas linda!

 

 

Quando a morte, inimiga de quem ama,

vier me cobrar a vida aos pés da cama,

é certo que estarei te amando ainda...

 

 

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COLAGEM A BENTINHO

Pequena homenagem à memória de

Machado de Assis

 

 

Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura!

Como era pura nos primeiros dias...

Mais alegre, mais cheia de harmonias,

Ria-se nela a aurora da ventura.

 

 

Ainda em flor, a tua formosura

Fez raiar para mim os tristes dias...

Eu sei; tive choradas agonias

De que conservo alguma nódoa escura;

 

 

Nessa sombria porta aberta à vida

Quis pôr termo fatal à humana lida:

- "Perde-se a vida, ganha-se a batalha!"

 

 

Conte coo meu exemplo e o meu conselho,

Boa lição é sempre a voz de um velho,

Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

 

 

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O RETIRANTE

 

 

Quando chegar a hora derradeira

teu corpo descerá por sob a terra,

triste e vazio, como quem desterra,

sem consigo levar pranto ou bandeira.

 

 

Será a despedida verdadeira

de quem perdeu, sem luta, a mesma guerra,

contraditória e vã, que não se encerra:

da alma contra a existência passageira...

 

 

Nem levarás lembranças ordinárias;

o gosto, o cheiro, o toque, uma visão,

de sensações passadas e contrárias.

 

 

Só o silêncio imenso deste instante,

maior do que a sombria solidão,

dirá: - Seja bem-vindo, retirante!

 

 

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SONETO DOS ESCOLHIDOS

 

 

Herói de corpo frágil mas valente,

De pé carrega o mundo nos seus ombros;

Capaz de transformar quaisquer escombros

De guerras em poesia comovente;

 

 

Tratado muita vez como indigente,

Do céu recebe luz, calor, ensombros;

O simples resistir provoca assombros

Aos olhos de quem não conhece gente.

 

 

Essencialmente espírito romeiro,

Sujeito do Brasil, do mundo inteiro;

Sem nome ou sobrenome conhecidos.

 

 

Estão nas ruas, praças, trens, abrigos;

São chamados de nobres, de mendigos;

De pobres diabos, ou de os escolhidos.

 

 

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OS CONDENADOS

 

 

Não tive sorte, disse sem me olhar.

Nunca estudei. Fugi porque apanhava

demais, e fiz promessa que voltava.

Vaguei, andei sem rumo nem lugar.

 

 

Cresci lutando contra o que encontrava.

Verguei, mas não a ponto de quebrar.

A vida me ensinou a conservar

o ódio, que transformei em calma e lava.

 

 

Fui perseguido e fui perseguidor.

No começo um moleque de recado,

depois um respeitado matador.

 

 

Quando voltei ao ponto de partida,

vi que a pobreza os tinha condenado

e, nunca, me senti tão só na vida.

 

 

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SONETO PARTIDO

 

 

Se o presente acontece, o acontecido

é fragmento guardado na memória;

ou registro que fica ( ou não ) na história

transformado, na essência do sentido.

 

 

Não é mais o que foi quando vivido -

irresgatável nota promissória -,

sendo apenas a porta divisória,

como tantas que falam ao olvido.

 

 

Se certezas garantem alegrias

( ao cedermos aos beijos da vontade

reduzimos as nossas agonias ),

 

 

não nos dão nada mais do que conforto.

Afinal a vivida realidade

se converte depois em corpo morto.

 

 

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CONFISSÃO

 

 

Não vou - como soía acontecer -

de peito aberto, passos firmes, mãos

prontas a tratar todos como irmãos,

olhos cegos de tanto bem querer.

 

 

Agora eu não sei mais o que dizer;

não sei onde pisar por esses chãos;

sinto meus pensamentos tolos, vãos;

e a vontade de amar virou sofrer!

 

 

Aquele riso doce de ternura

parece que não cabe em mim agora;

fiquei estranho, sou outra criatura.

 

 

Mas não fui eu (fui eu?) quem foi embora,

quem me deixou no chão foi a ventura.

E sofro de uma dor que me devora.

 

 

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O AMOR ENSINA NO CASTIGO

 

 

O amor faz e, depois, desfaz; assim

num repetir-se sempre, eternamente...

Se alguém se diz senhor, forte e valente,

capaz de dominá-lo até o fim;

 

 

Se algum vaidoso ri indiferente,

e põe-se numa torre de marfim,

querendo condenar a quem o sente,

e despejar, cruel, o seu latim;

 

 

Se alguém levanta a voz com arrogância,

ao ser importunado por amigo,

que chora a dor terrível da distância;

 

 

Não faz a vida mais do que brincar,

porque o amor ensina no castigo,

e quem é forte, fraco ficará.

 

 

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IVETE

 

 

Vestida de crisântemo amarelo,

Ivete suspirava seus amores

em versos decorados de cantores,

no ritmo agalopado do martelo.

 

 

Sonhava que vivia num castelo

dourado, e que valentes protetores

zelavam pela guarda dos penhores,

felizes por servirem com anelo.

 

 

Ivete transformava pedra em ouro.

Juntava no jardim do sanatório

as jóias que compunham seu tesouro.

 

 

E em noites de delírio dolorosos,

falava de gigantes do litóreo

que vinham pertubar libidinosos.

 

 

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SONETO OLD-FASHIONED

 

 

Feliz não és agora do meu lado;

feliz ao lado teu não sou mais eu;

não posso te dizer que fui culpado;

culpada não te julgo, aconteceu...

 

 

Vivemos o presente do passado

de um verbo intransitivo que morreu;

e aquele sentimento apaixonado,

na estrada dessa vida se perdeu.

 

 

Olhando-te na face envelhecida,

eu vejo cada dor, cada ferida,

expostas no teu corpo como um mal.

 

 

E, mesmo, já não tenho paciência

de ouvir, se tens alguma inconfidência,

e durmo sem que chegues ao final.

 

 

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RELICÁRIO

 

 

Aberto o relicário resta vê-lo...

Lembranças de outros tempos, infinitos,

ecoam pela casa como gritos

distantes, provocando o desmantelo.

 

 

Aquele outro não quer reconhecê-lo;

e não se reconhece em manuscritos,

nem naqueles modelos esquisitos,

nem tampouco nos cortes de cabelo...

 

 

Não há como fazer conciliação

em partes tão distintas, conflitantes,

que não podem sequer se dar a mão.

 

 

E, novamente preso na gaveta,

o jovem de talentos abundantes

lamenta o seu futuro proxeneta.

 

 

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SONETO DO APRENDIZADO

 

 

Desejar conhecer o coração,

não o músculo, pedra dissecável,

mas, sim, o coração impenetrável

dos amores, paixões; o da emoção

 

 

que não tem nem requer explicação.

Procurar decifrar o indecifrável

e buscar a razão no inexplicável,

o que nele parece perfeição.

 

 

Observar, escrever - pacientemente -

notações sobre o que perturba a mente

e me faz, sem querer, perder a calma.

 

 

Mas saber que o melhor, mais verdadeiro,

a raiz, coração aventureiro,

é senti-lo pulsando em minha alma.

 

 

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BRANCA LUZ DE VERÃO

 

 

Eu queria um momento de ternura

Pra saudar esse dia ensolarado.

Um só cúmplice, próximo e calado,

Que pudesse entender toda a brancura

 

 

Desse quadro concreto, sem pintura.

Quadro branco, de branco não pintado;

Quadro aberto, sem tela, emoldurado

Pelos olhos que inventam a criatura.

 

 

Eu queria mostrar esse poema

De branca areia e espuma de Ipanema,

A alguém que visse o brilho desse sol,

 

 

Além das cores óbvias do verão.

Uma mulher de branco coração,

Vestida de luz sob o alvo lençol.

 

 

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SONETO DE ADVERTÊNCIA

 

 

Escutem as crianças desprezadas,

as vozes das pessoas excluídas,

não há outra verdade, outras saídas,

nem como conservá-las apartadas.

 

 

Estão os nossos corpos com feridas;

estão as nossas almas maculadas.

Irmãos estão na beira das estradas;

milhares perdem cedo as suas vidas.

 

 

Até as pedras cobram providências;

os ventos nos sussurram tempestades;

nos mares ondas lançam advertências,

 

 

e o fogo se propaga nas cidades.

É tempo de encarar nossas carências!

É tempo de romper todas as grades!

 

 

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RECOMEÇAR

 

 

Mortos todos os sonhos, resta amar

o momento e a quem nunca imaginamos;

Resta olhar sem os olhos que julgamos

e que nos deram medo de avançar.

 

 

Ouvir os sons que nunca reparamos,

coisas simples que tocam sem cobrar;

Resta poder falar o que pensamos,

e nos lançar sem âncoras no mar.

 

 

Pisar o chão com pés de quem voltou,

depois de longos anos de proscrito,

e retomar a luta com frescor.

 

 

E quando os sonhos todos retornarem,

com suas asas negras de granito,

resta saber viver... e os libertarem!...

 

 

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ENCONTRO

 

 

A Razão

se perdeu

quando ardeu

de Emoção;

 

 

A Emoção

percebeu

que viveu

sem Razão;

 

 

"- Vou sentir!"

"- Vou pensar!"

Declararam.

 

 

Ah! E aqui,

neste bar,

terminaram...

 

 

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TRANSE

 

 

Se falo de futuro quando canto

é porque sei mentir como criança.

Ao contrário da vida, sou lembrança

que traduz em palavras seu espanto.

 

 

Do caos retiro a música e a dança;

do humano, um personagem quase santo;

e, não sabendo nada, sinto tanto,

que no fim infinito ainda avanço.

 

 

Louvo a obra de Homero e Tintoretto,

passando pelos livres verdes versos,

e saúdo a gentileza do profeta.

 

Na fórmula ajustada do soneto,

que detém e que expande o universo,

não há limite ao brado vão do poeta.

 

 

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ADEUS

 

 

Aquele adeus doeu, não pelo aceno

sem mágoa, sem sinal de sofrimento;

não pelo espaço a mais no apartamento,

no guarda-roupa - antes tão pequeno...

 

 

Doeu porque fiquei frio e sereno,

tentando retribuir o cumprimento.

Cheguei a simular contentamento

num riso fácil, cheio de veneno.

 

 

Doeu porque fingi inutilmente...

Nenhum disfarce encobre totalmente

a dor de um coração em desalinho.

 

 

Bati a porta e ouvi você falando;

lembrei dos nossos corpos se tocando...

Doeu porque não sei viver sozinho.

 

 

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MENSAGEM

 

 

Não gostamos de guerra, seja qual;

preferimos cantar a liberdade.

Não se espante ao nos ver pela cidade,

com nosso colorido desigual.

 

 

Não; não somos um bando marginal

que não serve de exemplo à mocidade.

Nada disso. Com muita dignidade,

crescemos como a flor no seu quintal.

 

 

Não precisa fechar sua janela

e espiar pela brecha, cuidadosa,

pra saber o que a gente está fazendo.

 

 

Se quer nos conhecer, traga uma vela

e, sentada no chão, puxe uma prosa,

e vamos aprender nos aprendendo.

 

 

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LIBÉLULAS

 

 

Libélulas não voam nas alturas

buscando o brilho etéreo circular.

Passeiam, na penumbra deste bar,

qual fossem personagens de pinturas:

 

 

As pernas, os contornos das cinturas,

as cores luminosas de um Renoir,

contrastando com o lúgubre lugar

e com as esdrúxulas faces sem texturas.

 

 

Libélulas, sem asas de diamantes,

entregues à paixão vulgar da terra -

nas vozes sussurradas dos amantes -,

 

 

sucumbem nos destroços de uma guerra.

Não chegam a lugares mais distantes

pois, mal reluz a aurora, o show se encerra.

 

 

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CENA PAULISTA

 

 

O trânsito parou São Paulo. Dia

de longas filas rumo ao infinito.

Motores sufocados (como um grito)

queriam escapar dessa agonia.

 

 

No céu imensa nuvem encobria

o sol dos motoristas em conflito;

buzinas, palavrões que não repito,

compunham o cenário de entropia.

 

 

Em luta por espaços dissonantes,

as vozes se tornavam mais nervosas.

Perigo de explodir o caldeirão.

 

 

Mas, vindo contra o fluxo, dois amantes

faziam seu protesto dando rosas

a quem abrisse o vidro (e o ) coração.

 

 

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SONETO DO VERDADEIRO AMOR

 

 

Ouvir o coração vibrar de amor

Amor tão forte, bom, que faz doer

Doer de gozo: misto de prazer

Prazer que se for ver também é dor

 

 

É dor que purifica em se sentir

Sentir que é chama acesa essa paixão

Paixão cantada em versos na canção

Canção que dói se tenho que partir

 

 

Partir sabendo sempre vou voltar

Voltar aos braços doces da mulher

Mulher que não me canso de louvar

 

 

Louvar em versos tantos que nem sei

Nem sei como dizer da minha fé

A fé no amor que ainda cantarei.

 

 

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SONETO DE SEPARAÇÃO

 

 

Vagueio pelo quarto iluminado

apenas pela luz do corredor.

Na cama de casal o cobertor

ainda permanece revirado,

 

 

do jeito que você mesmo deixou.

Procuro na mesinha bem ao lado

a foto do seu rosto delicado

no fundo azul do mar do Arpoador.

 

 

Por onde você anda na cidade

Enquanto fico triste por sofrer

a falta que me faz o seu carinho

 

 

Então eu morro aos poucos de saudade

pois tudo é tão pequeno sem você

E dói demais ficar assim sozinho.

 

 

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SONETO À MULHER AMADA

 

 

Se tento capturá-la na retina;

São tantos megapixels nessa história

Que a máquina congela, sem memória,

Por causa da beleza feminina.

 

 

Beleza que nenhuma escola ensina.

Nascida da equação combinatória,

Da força da mulher em sua glória;

Da graça natural de uma menina.

 

 

Preciso urgentemente promover

O aumento radical na CPU

E a baixa de versões que possam ler

 

 

E processar tamanha informação.

Se tento capturar seu corpo nu

Movendo-se na minha direção.

 

 

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SONETO DA CAÇA E DO CAÇADOR

 

 

Ferida, a fera ruge em tom sofrido,

e o som se espalha feito bala, brasa,

até que a morte envolve, com negra asa,

o corpo do animal, enfim, vencido.

 

 

O tiro disparado tinha sido

o último. E o rapaz ia pra casa

sentindo a dor cruel que nos arrasa,

ao receber castigo imerecido.

 

 

Mas eis que a sorte muda em um segundo,

assim que aquele dado foi lançado,

e o caçador conquista o jogo, o mundo...

 

 

Enquanto um vibra, um filho vaga triste;

procura pela mãe no descampado,

perdido, sem saber que a caça existe.

 

 

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SONETO DO GRANDE ENCONTRO

 

 

A vida tem mistérios e razões

que  somos incapazes de entender.

Por que ficar tentando se prender

a tão simplórias leis, explicações?

 

 

Valeu a pena quando corações

cruzaram-se na noite sem saber,

que aquele era tempo de viver

a eterna história tema de canções.

 

 

Foi lindo ver nascer uma paixão.

Projeto que nenhuma mão traçou.

Mistério em uma simples equação.

 

 

E, juntos, eles brilham uma cor,

que não se vê nos pares do salão:

a luz do verdadeiro grande amor.

 

 

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SONETO DE REENCONTRO

 

 

O coração resiste à indiferença,

Ao olhar de desdém, à hipocrisia;

Suporta a voz, o riso de alegria,

A mão pedindo (sem tocar) licença;

 

 

Consegue sufocar a dor imensa

De vê-la junto à nova companhia.

E sustenta uma falsa calmaria,

Esperando que a farsa lhe convença.

 

 

Qual de nós que melhor terá mentido?

Qual de nós negará que está ferido?

Não consigo pensar nem responder.

 

 

Um dia, quando o tempo houver curado,

A dor em nosso peito machucado,

Talvez tenhamos força de dizer.

 

 

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SONETO DO AMOR ETERNIZADO

 

 

Queria eternizar este momento

Em que somos dois corpos ofegantes,

Banhados pela luz de mil diamantes,

Na cama de singelo apartamento.

 

 

Dizer-te o quanto vaga o pensamento,

Em mundos e planetas mais distantes,

Levado por carícias suplicantes

Que falam do mais puro sentimento.

 

 

Mas, diante da beleza intraduzível

Do derradeiro gozo de prazer,

Qualquer declaração é preterível.

 

 

Então eu calo e deixo me envolver

Por essa sensação inexprimível,

Maior do que a vontade de viver.

 

 

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SONETO NAS AREIAS DO LEBLON

 

 

Caminho nas areias do Leblon

sozinho, sem temer a solidão.

No peito trago o som de uma canção;

e o sal no céu da boca, como é bom!

 

 

Queria conversar, falar do Tom,

dos anos de Brasília em construção,

de jovens que sonhavam a nação,

citando lindos versos de Drummond.

 

 

Mas logo vejo um grande hotel à frente,

que a voz de outra Marina eternizou.

E o pensamento muda, de repente,

 

 

procura pelas pedras do Arpoador,

por onde andava  e via tanta gente,

após os shows num Circo inovador.

 

 

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SONETO DO BRILHO DO SEU OLHAR

 

 

De voar, só sei dizer que nunca paro.

Se o corpo que me veste é pó (do chão);

minha alma, inconformada com a prisão,

se expande em versos livres que declaro.

 

 

Se provo deste fruto, doce e raro,

que a amada musa pôs na minha mão;

descubro, para além da sensação,

o dom transcendental do que me é caro.

 

 

Se caio desmaiado nos seus braços,

não é por não ter força de lutar,

nem por temer o peso de fracassos.

 

 

É por saber que nunca vou chegar,

tão longe, nos confins de outros espaços,

ao infinito brilho do seu olhar.

 

 

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BRAZIL REVISITED

 

 

Senhores para mando temos tantos,

Que querem governar e tirar tudo;

Uns valem-se de força ou de canudo;

Outros se vestem como fossem santos

 

 

Para vender aos crédulos seus cantos.

Os filhos vão embora para estudo,

E aprendem sempre o mesmo conteúdo.

Depois repartem feudos nos recantos.

 

 

Proclamam a moral com mil amantes;

Alguns erguem castelos nas montanhas,

Fidalgos de uma corte de farsantes.

 

 

Suborno chamam "sobras de campanhas";

Vergonha não revelam nos semblantes;

E escondem a verdade com patranhas.

 

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O PÁSSARO

 

O pássaro surgiu, ruflando as asas,

e. num galho delgado, se aninhou.

"Quem és tu, solitário mercador,

que oferece ilusões a tantas casas?”

 

"Com que doridos seres tu te emprazas?",

quis saber o nostálgico de amor.

Neste momento o pássaro cantou,

reacendendo em seu peito antigas brasas...

 

"Bendito sejas tu, que me curaste!

Eu havia perdido a fé no mundo,

e, em muito boa hora, tu chegaste."

 

Alheio àquele solo sentimento,

o pássaro partiu: - "Meditabundo!,"

como depois constou no testamento.

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